Flores Vermelhas em Noites Azuis

16 de junho de 2026
Autor: Edvaldo Pereira de Moura - Desembargador do TJ-PI, mestre em Ciências Criminais pela PUC-RS, membro da Academia Brasileira de Letras da Magistratura -ABLM, vice-Presidente do IMB e professor de Direito Penal e Processual Penal da UESPI

Arriscar algumas considerações prévias, sobre o fruto do trabalho intelectual de alguém, por quem não é do mesmo ramo, é alçar võo no escuro. A aventura, quando blasoneira e jactante, contribui com a lisonja, que é uma das máscaras da hipocrisia e do deboche; quando lhe faltam a sabedoria, o zelo e o alento construtivo necessários do especialista, é o bruxuleio de uma vela em pleno dia. Há, porém, um terceiro caminho: o dos que dizem aquilo que lhe vem das fontes recônditas do coração, da exultação da alegria, do manifestar da gratidão e da comunhão do afeto. Nesta terceira via, trafegarão minhas linhas e por isso estou a salvo dos dois primeiros juízos.


Pois bem, recebo, com alegria, a distinção do meu parente, amigo e conterrâneo ilustre, Moisés Ângelo de Moura Reis, para dar prefácio aos originais do seu livro, Flores Vermelhas em Noites Azuis. Conforme o parágrafo exordial, não sou a pessoa certa para emitir juízo de valor sobre os seus escritos; funciono bem, como um dos seus milhares de leitores, que gostam de saborear suas crônicas jornalísticas e como pessoa orgulhosa de ver mais um oeirense e familiar brilhando com intensidade de primeira grandeza.
Antes que mergulhemos na leitura destes textos primorosos, permita-me o leitor, algumas conjecturas genéricas, que me parecem convenientes.


O genial escritor lusitano, José Saramago, Prêmio Nobel de Literatura, um dos mestres contemporâneos da nossa língua, em seu Ensaios sobre a Cegueira, chama todos nós à “responsabilidade de ter olhos, quando os outros os perderam”, nestes tempos sombrios, pois, somos obrigados a parar, fechar os olhos e “ver”, recuperar a lucidez e resgatar o afeto.


Acode-nos, ainda, outro chamado erudito de peregrina sabedoria e grande atualidade, lembrando as recomendações de Rainer Maria Rilke feitas ao jovem poeta
Franz Kappus em suas relações epistolares, contidas no extraordinário opúsculo: Cartas a um jovem poeta, publicado em Berlim, no ano de 1929.


O nome de Rilke é patrimônio da literatura universal. Trata-se do maior poeta alemão do século XX, mesmo nascido em Praga, em meados do século XIX, quando aquela cidade pertencia ao Império Austro-Húngaro.


Franz Kappus, durante um bom tempo manteve correspondências com Rilke, em busca de conselho para a arte de pensar e escrever. Numa dessas cartas, Rilke responde a Kappus, quando este lhe pergunta sobre a qualidade de seus versos, então enviados para o exame do mestre:


“O senhor olha para fora, e é isso sobretudo que não devia fazer agora. Ninguém pode aconselhá-lo e ajudá-lo, ninguém. Há apenas um meio. Volte-se para si mesmo. Investigue o motivo que o impele a escrever, comprove se ele estende as suas raízes até o ponto mais profundo do seu coração, confesse a si mesmo se o senhor morreria caso fosse proibido de escrever. Sobretudo isto: pergunte a si mesmo na hora mais silenciosa da sua madrugada: preciso escrever? Desenterre de si mesmo uma resposta profunda. E, se ela for afirmativa, se o senhor for capaz de enfrentar essa pergunta, grave com um forte e simples ‘preciso’. Então construa a sua vida de acordo com tal necessidade; sua vida tem de se tornar, até na hora mais indiferente e irrelevante, um sinal e testemunho desse impulso”.


Mais adiante, em suas recomendações, Rilke arremata seu oráculo poderoso:
“Por isso, guarde-se dos temas gerais para acolher aqueles que seu próprio cotidiano lhe oferece; descreva suas tristezas e desejos, os pensamentos passageiros e a crença em alguma beleza – descreva tudo isso com sinceridade intima, serena, paciente, e utilize, para se expressar, as coisas de seu ambiente, as imagens de seus sonhos e os objetos de sua lembrança. Caso seu cotidiano lhe pareça pobre, não reclame dele, reclame de si mesmo, diga para si mesmo que não é poeta o bastante para evocar suas riquezas; pois para o criador não há nenhuma pobreza e nenhum ambiente pobre, insignificante”.


Precisaríamos ler mais sobre o sábio poeta alemão, para dizer o quanto ele é universal e atual?


Quem não reconheceria na vida e nos escritos de Moisés Reis alguém a quem o mestre Rilke diria: “o senhor é a afirmação verdadeira daquele que escreve por necessidade vital; como náufrago que se apega em alto-mar, à sua única tábua de salvação.”


O homem que escreve por necessidade de cumprir seu desiderato existencial, provido do preparo técnico e intelectual de invejável mestria, como Moisés Reis, está destinado à imortalidade e ao eterno reconhecimento dos seus amigos e admiradores.


Em seu livro primicial, Com Olhos de Argos, publicado em 1999, reunindo artigos diversos, divulgados em jornais piauienses, Moisés Reis já “olhava para dentro”, como o continua fazendo neste seu conjunto de crônicas e ensaios intitulado Flores Vermelhas em Noites Azuis. Naquele livro, ele profetizava em sua crônica que dá título à obra: “Enquanto a sociedade não se juntar, interessada, organizada e consciente; enquanto os homens públicos não decidirem permanecer vigilantes, com olhos de Argos, atentos para os reais problemas do Estado, o Piauí não sairá da vergonhosa situação de, mesmo tendo às mãos as riquezas naturais, continuar lobrigando, através de tímidos arremedos de progresso, longínquos horizontes”.


Neste livro, ele usa a metáfora cromática da flor vermelha e da noite azul, quando critica as ações anarquistas e, por isso, contra a ordem jurídica, do movimento dos sem-terra, sincero e cortante, como o verbo de João Batista. Naquele, ele recorria à metáfora mitológica, lembrando o personagem grego Argos, que enxergava com cem olhos, cuja vigilância era sempre mantida com a metade deles aberta.


Escolhi, de propósito, as persistentes referências à visão, porque deixei para o leitor o prazer de ler ou reler as crônicas e ensaios de um mestre do domínio da arte de escrever, cuja essência e forma não poderia identificar, senão, um espírito atilado, culto e messiânico de um cidadão que orgulha a sua terra em todos os segmentos alcançáveis por quem nasceu talhado para brilhar, entre os melhores do seu tempo. Concluindo, volto a lembrar o velho e genial Saramago, quando assevero que Moisés Reis continua escrevendo com a responsabilidade de olhar com olhos de Argos, para dentro, buscando recuperar a lucidez e resgatar o afeto numa sociedade para a qual parecem infensas às
áureas regras da ética, da decência e da compaixão, nestes tempos sombrios, marcados pela incerteza, pela violência e pela insegurança.

« Voltar
©2017 - ASSOCIAÇÃO DOS MAGISTRADOS PIAUIENSES - AMAPI
Todos os diretitos reservados.
Av. Padre Humberto Pietrogrande, nº 3509, São Raimundo, CEP 64.075-065 - Teresina-PI. Prédio Administrativo - Térreo
(86) 98845-9792 / (86) 98876-1025 / E-mail: amapi.amapi@gmail.com