O Lançamento da Obra Literária Traquinagem

23 de setembro de 2026
Autor: Edvaldo Pereira de Moura - Desembargador e Presidente do Tribunal de Justiça do Piauí, Professor de Direito Penal e Processual Penal da UESPI e membro da Academia Brasileira de Letras da Magistratura.

Como Juiz de Direito e Presidente da Academia de Letras da região de Picos tive a honra e a satisfação de proceder ao lançamento da emblemática obra Traquinagem do colega e imortal piauiense, José Magalhães da Costa, notável ficcionista, de quem sempre fui amigo e admirador.


O ato solene que tive a honra de ministrar, foi a liturgia daquilo que a humanidade possui de mais autêntico: a reverência ao patrimônio gerado pela inteligência e pela operosidade do espírito – a cultura, como o império da competência criativa como o respeito aos bens do espírito, às sutilezas da alma e ao verdadeiro fazer cultural, único patrimônio totalmente exclusivo da ontologia humana.


Pensando assim, ouso tecer ligeiras considerações a respeito de uma figura do nosso meio literário que, há anos, vem atraindo a atenção, não apenas do público amante da boa leitura mas, principalmente, da crítica literária de além-fronteira. Isso lhe faculta, hoje, ombrear-se com O. G. Rego de Carvalho, Esdras do Nascimento e Assis Brasil, na categoria dos ficcionistas de escol, que fizeram a sua arte atravessar as fronteiras deste Estado, ainda carente de expressões de grande porte, no campo das ciências, das artes e das idéias.


Refiro-me ao escritor José Magalhães da Costa, sem sombra de dúvida, ao lado de Fontes Ibiapina, meu parente, o maior contista piauiense de todos os tempos. Ele é natural de Piracuruca e, há anos, vem se dedicando ao ofício literário, aperfeiçoando, a cada dia, a arte de contar estórias, inspirado na vida dos entes de sua própria aldeia, no desenrolar de sua vida de arguto observador, mestre na estética contística, tida pelos especialistas, como a mais difícil da arte de escrever.


Como fazem os grandes autores, Magalhães da Costa, sem as vestes talares de juiz imaculado, não leva ao seu texto enxuto, rápido e diamantino, nenhum resquício daquele jargão cartorário, formal, solene e erudito de seus despachos e de seus arrazoados judicativos.


Contando os seus casos, Magalhães da Costa parece encarnar o menino curioso, inteligente, irrequieto e traquinas, revirando o baú de mistérios do viver e do falar de sua gente, como só ele mesmo sabe fazê-lo. Ele se fez intérprete universal de sua gente, daqueles viventes simples e pouco conhecidos.
Como todos os grandes escritores, Magalhães da Costa imortaliza a sua terra, a sua gente e o seu tempo, com o toque mágico de sua arte para, assim, conduzi-las ao mundo paralelo onde, redivivos, povoarão, tempo a fora, o universo dos nossos sonhos mais perenes.


A honra que tive em receber, assim, uma pessoa da dimensão moral, intelectual e, sobretudo, humana, do quilate de José Magalhães da Costa, um dos luminares da literatura piauiense e mestre honorável da nova geração de magistrados, com certeza, consistirá em tê-lo feito inesquecível, para os anais da Academia de Letras da Região de Picos.


Falei do homem e do escritor, do magistrado e do cidadão de brios incomuns, deixando para esta conclusão, a referência a sua última obra, entregue à degustação espiritual dos que se alimentam da boa e saudável leitura.


Valendo-me das abalizadas opiniões de intelectuais do nível de Assis Brasil, Altervir Alencar e Hardi Filho, seus colegas de Academia e figuras extraordinárias no exercício da arte de escrever, é uma das mais completas já produzidas no Piauí.


Para Assis Brasil, “a ficção de Magalhães da Costa é de fino e inventivo corte regional. Lembrando, por vezes, o seu conterrâneo Fontes Ibiapina — ambos trabalham a linguagem ao nível da oralidade, com boa fatura estilística — os contos de Magalhães da Costa levantam todo um contundente retrato social do interior do seu Estado, entre a ingenuidade popular e a esperteza de cabras e caboclos de um Brasil perdido no oco do mundo e não menos importante e significativo ao nível da dimensão humana”.


Dele, também fala o poeta Altervir Alencar: “é o que ocorre com Magalhães da Costa. Sendo um exímio artífice da arte de narrar, por natureza, tem a seu favor o fator ponderável da vivência, a erudição humanística, a temática original, o estilo pessoal, enfim, toda a gama de atributos de que se constitui a alma do verdadeiro contista”.


Não menos importante é a observação de Hardi Filho que, sobre a sua imorredoura obra, textualmente diz: “neste Traquinagem, Magalhães da Costa dá continuação ao seu modo de contar, peculiaríssimo e demonstra mais uma vez a sua familiaridade com a fala coloquial e as tradições nordestinas em novos e poderosos instantes de talento narrativo”.


Conhecendo, como ninguém, o tom e a têmpera de Magalhães da Costa, a professora Maria Gomes Figueiredo dos Reis, prefaciadora da obra Traquinagem, assim também se manifesta: “De Magalhães da Costa podemos fazer o mesmo juízo crítico que Josué Montello faz de José Lins do Rego: ‘Desde cedo, o narrador domina em plenitude o seu instrumento de expressão. De início a língua literária do romancista dá a impressão de ser a língua oral que este transferiu ao papel da escrita. Uma espécie assim de estilo palestrado, que viesse diretamente da boca do povo para a pena do escritor. No entanto, ao ser examinado com atenção de estudo, evidencia-se na forma de José Lins do Rego o bom gosto do artista, a serviço de uma perfeita limpidez’.”


Ao cabo de apreciações tão valorativas, oriundas de pessoas emblemáticas da literatura piauiense, arrisco postular, segundo o qual o instinto do leitor esforçado também pode descobrir rumos que parecem só constar da cartografia itinerante dos críticos literários. Isso se deve ao fato dos grandes autores possuírem o condão da empatia quase mágica, em cujo momento se realiza a sua proposta estética.
O contista Magalhães da Costa tem esse dom admirável, esse toque miraculoso de encantar a todos, indistintamente, com a beleza de sua criatividade e a clareza do coloquial e do intimismo, em seu estilo. Ele fala, como ninguém, de sua aldeia e por isso é o mais universal dos ficcionistas brasileiros.


Em Os Terços — uma das pérolas do belo colar de causos vividos, sente-se a transparência dos predicados do seu inspirado autor, competentemente analisados pela insigne professora Maria Reis, para quem o contista piracuruquense sabe alçar voos, sagazes e audaciosos, sobre os quintais das nossas vidas e das quebradas dos nossos sertões.

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