Não trago para essas rápidas considerações, um elucidário filosófico ou teológico profundo. Esse voo vertiginoso e genial, já foi feito, há algum tempo, pelo meu colega e amigo, Desembargador Francisco Meton Marques de Lima, em sua obra extraordinária, O Livro dos Valores. Não me debruço, também, sobre as grandes preleções deontológicas, que delimitam, com regras explícitas, as relações do indivíduo em seus grupos de pertencimento social, em que ele viva.
Minha pretensão é singela e se distancia, até mesmo, da terminologia em que permeia o linguajar do meu ofício magistratural. Meu recado é transparente e sem mistérios. É como um aviso aos navegantes que, sob nevoeiro ou temporal, conduzem a embarcação da vida, nos mares convulsivos dos nossos dias.
Discorro sobre a gratidão, como valor moral e regra social, para aqueles que agem como se estivessem isolados numa ilha, ignorando de onde vêm, onde estão ou para onde vão. Começo recorrendo às palavras do Desembargador Meton, quando lembra que “ingratidão significa falta de gratidão, em relação a alguém que lhe dedica respeito ou lhe prestou favores, em momento de necessidade. A ingratidão é algo abjeto, desprezível, que causa repulsa moral. O ingrato serve-se dos favores do outro e joga-lhe os pés, quando é solicitado. A ingratidão é proporcional ao bem ou ao afeto recebido pelo ingrato, que renega o seu benfeitor”.
Ao ingrato só lhe interessa o que possa locupletar suas ambições pessoais. Os seus valores são construídos sobre os escombros do aviltamento alheio. O ingrato, como qualquer ave de rapina, sobrevoa lentamente o ambiente em que escolherá a sua vítima. E a vítima desses indivíduos deformados de caráter, são geralmente as pessoas de bem, ou seja, aqueles que desejam ver todos fruindo os valores de uma vida bem construída e regada pelas mais nobres conquistas do espírito.
Como se sabe, as regras morais são autônomas, internas e invisíveis, por excelência. As normas deontológicas, são as regras morais explicitadas, em códigos particulares. São os códigos da ética que servem para guiar os indivíduos, em seus grupos próprios. Cada pessoa válida, tem o seu código de pertencimento profissional. Além desse pertencimento profissional, tem um círculo maior, que é o do pertencimento social, em que ele vive.
Aquele que consegue atravessar, sem sopesar o seu egoísmo e a sua impostura pessoal, com a soberba e a irresponsabilidade de seus atos vis, são os mais infelizes e mais inabilitados dos seres humanos.
A ingratidão é o único mal aferrado no imo da alma das pessoas, que até os animais irracionais, reconhecem no homem. Como dizia Esopo, a gratidão é a virtude das almas nobres.
Para Sêneca, quem acolhe um benefício com gratidão, paga à primeira prestação de sua dívida. Infelizmente, como ensinava o velho Aristóteles, o reconhecimento envelhece depressa.
Em resumo, o ingrato é um indivíduo tão abjeto, que a sua singularidade representa o lado obscuro da dignidade humana, por negar ele o valor maior delimitado pela escala axiológica, em que se rege a conduta do cidadão e dos seres humanos em geral.
Segundo Cícero, a gratidão não é apenas a maior das virtudes humanas, mas a mãe de todas as outras.