Como Juiz de Direito da Comarca de Picos, a convite do Pe Francisco Bezerra, hoje residindo em Roma, mesmo sem ser portador de méritos literários ou dotes oratórios, tive a grata quão honrosa incumbencia de proceder a saudação do Pe David Ângelo Leal, meu ex-professor de Português, na Cidade de Oeiras, minha terra natal, pela passagem do Jubileu de Ouro de sua Ordenação Sacerdotal.
Mesmo apanhado de chofre pelo cativante convite, senti que não podia me furtar de tão gratificante e honrosa tarefa, por me considerar devedor, sem remissão, ao homenageado, pelas razões que buscarei externar, de duas palavras: O momento era azado e ensejava fazê-lo. Eram palavras simples mas, sobretudo, prenhes de sinceridade.
E interpretando, por certo, o sentir e o pensar das autoridades presentes, afiancei que ninguém melhor do que o Pe. David, é digno de se inscrever, de forma indelével, na alma e no coração do povo picoense, a que vem servindo, como o fez na vetusta e tradicional Oeiras, com dedicação, entusiasmo, amor e inexcedível zelo pastoral.
Certa vez, Santa Brígida, mãe de Santa Catarina da Suécia, em súplica devocional, dirigiu-se à Santa mãe de Jesus, com as seguintes palavras: “Ajuda-me, oh mãe caríssima, a amar teu filho, de modo perfeito. Sinto-me tão fraca e incapaz de fazê-lo, como deveria”.
Ao concluir tão fervorosa prece, eis que surge, belo e iluminado, diante daquela Santa, o espírito de Maria de Nazaré, que em resposta à candente petição de Santa Brígida, amorosa e terna, mas sem abdicar de um tom admoestativo, exclamou: “Pensa antes em costurar o vestido de tua filha; ela não está usando uma saia de seda, mas uma roupa de lã grosseira, já por demais velha e remendada…”
A admoestação maternal de Maria de Nazaré, é uma luminosa síntese da doutrina do amor, revelada na Epístola de Tiago, quando diz: “A fé sem obras é morta, acrescentando: qual é o proveito, se alguém disser que tem fé, mas não tiver obras?”
Sem desprezar as excelências da oração, a Virgem Santíssima aponta o espírito de serviço a uma mãe de família, com a responsabilidade de criar os seus filhos, uma vida ativa em benefício do próximo, a caridade pura, como os principais objetivos de uma vida verdadeiramente religiosa e como reais alicerces, da legítima ascese da alma.
Quando Jesus Cristo, exorta-nos tambem a amarmos uns aos outros, como ele nos amou, ou quando nos pede misericórdia e não holocausto, está fazendo a apoteose da caridade, que é o verdadeiro amor em ato, da transcendência divina. Assim é que, não se pode entender que a missão sacerdotal possa ser desvinculada de exemplos fraternos e dos indispensáveis balizamentos morais. Se pudermos entender tudo isso, para que se possa viver o verdadeiro Cristianismo, teremos que agradecer a Deus pela graça e pela caridade que nos presta, quando põe em nosso caminho, pessoa da índole, da verticalidade moral e das virtudes cívicas e teologais de uma figura do nível de Pe. David Ângelo Leal.
Diz a sabedoria do senso comum, que um grande estímulo na vida é saber que alguém confia em nós e de nós espera grandes coisas, mesmo quando nos sentimos premidos por carências aparentemente indeslindáveis e insolúveis. A sabedoria de Confúcio nos lembra que, de nada vale tentar ajudar aqueles que não se ajudam a si mesmos e Pitágoras, em síntese lapidar, ensina-nos que a verdadeira ajuda ao semelhante, consiste em levantar a sua carga, nunca, porém, em carregá-la.
Diz-se que a bondade é uma centelha divina acesa nas trevas do mundo em que vivemos e feliz são aqueles que se banham na claridade dessa luz.
Eu, particularmente e os meus irmãos, fomos ungidos com a graça de sua luz, de sua compreensão e do seu amor. Só uma pessoa de sua grandeza moral e espiritual poderia entender a angustiante dificuldade dos estudantes pobres, que éramos nós. O senhor nos acolheu e sem perguntar, sem querer nada em troca, nos serviu. Não esqueça, porém, de que a semente que o senhor regou, brotou, tornou-se árvore, cresceu e frutificou. Suas esperanças em nós foram realizadas. A carga que o senhor ajudou a levantar, está sendo carregada, com a força, o empenho e a grandeza, que não poderão envergonhá-lo. Se, segundo a milenar asseveração de Epicuro, o prazer de fazer o bem, é maior do que o de receber, ou, como leciona Baden Powell, a melhor maneira de ser feliz, é contribuir para a felicidade dos outros, com certeza, poucos ou quase nenhum dentre todos nós, estão de posse de tanta felicidade, quanto o senhor.
Adaptando a este momento, uma frase da imitação de Cristo, diremos que o homem deveria de tal modo firmar-se em Deus, tanto quanto o senhor tem feito, que não precisasse mendigar tantas consolações humanas. Certamente, as suas dores e os seus sofrimentos, suas angústias e suas inquietações, amigo David Ângelo Leal, nunca precisaram de consolações humanas, como estas que ora lhe dirigimos, porque aquele a quem muito foi dado, disse Jesus Cristo, muito lhe será exigido. A sua missão foi traçada por Deus, como se concede uma embaixada aos espíritos iluminados, plenos da imorredoura fortuna dos céus.
Se a porta entre nós e o céu, caro David Angelo Leal, não poderá abrir-se, enquanto estiver fechada, a que fica entre nós e o próximo, certamente, a porta celeste sempre esteve aberta para o senhor, iluminada pelo crisol das nossas preces, incensada pelo amor dos que pelo senhor foram servidos e harmonizada pelo coral dos anjos agradecidos pela vitória do irmão missionário.
Seria desvane cedor e plenamente justo, listarmos, aqui, o seu denso currículo e evidentemente, em cada citação só iríamos confirmar as considerações por nós pobremente pronunciadas.
Por fim, peço desculpas pelo desalinho das minhas palavras, na certeza de que o Ministro Vicente Leal de Araújo, palestrante de palavra fácil e fluente, deixar-nos-á, com a luz de sua inteligência e do seu profundo e proverbial saber, valiosíssimas reflexões que guardaremos com a solicitude e o respeito que elas nos merecem.