Prosas
Prosas Escolhidas - Parte III
06/10/2006

JUSTIÇA E BONDADE
 
                                     Elmar Carvalho
 
Quando tomei posse de meu cargo de magistrado junto ao Egrégio Tribunal de Justiça do Estado do Piauí, em discurso improvisado, disse que nos últimos dias me assaltava a preocupação sobre se deveria preponderar a justiça acima da bondade ou vice-versa.
Num poema de minha autoria eu já dissera que é bom ser bom e é mau ser mau. Na verdade é um falso paradoxo contrapor-se a bondade à justiça. No meu próprio discurso, acima referido, respondi que não existia nenhuma dicotomia, pois quem era bom era justo e quem era justo necessariamente era bom.
Creio que quando Cristo admoestou para que não julgássemos para que não fôssemos julgados não se referia à justiça dos tribunais humanos, porquanto esta surgiu de uma necessidade, para que fosse evitado o açodamento da justiça privada ou, em palavras mais claras, a vingança, que não raras vezes é injusta, seja pelos equívocos, seja pelos excessos. Suponho que ele estava se referindo ao fato de o ser humano ficar julgando o que se passa no mais recôndito de seu semelhante, ao que vai no mais profundo da alma de nosso próximo, e que nos é impossível perscrutar, mas não aos julgamentos feitos com base no que está nos autos dos processos. Quando na Bíblia se fala que com a vara com que medirmos seremos medidos, quero crer que ali se está falando na mais pura e na mais legítima justiça, na justiça de um só peso e de uma única medida, na justiça obtida através da empatia, em que o julgador procura se colocar na mesma posição e circunstância daquele que está sendo julgado.
Um dos maiores estadistas do Império, Nabuco de Araújo, pai do grande tribuno e abolicionista Joaquim Nabuco, afirmava que preferia antes ser julgado por um juiz corrupto do que por um juiz obtuso, pois o primeiro só cometeria algum deslize nas causas em que tivesse algum interesse, enquanto o de pouca inteligência sempre cometeria alguma injustiça em face de sua deficiência. Com todo respeito ao grande luminar do Império, não posso concordar com sua tese, pois a corrupção termina por ser um pecado original, que tudo mancha e tudo corrompe, porquanto um magistrado corrupto sempre procurará ter interesse em todas as causas, e na verdade acima de ser um juiz será sobretudo um mercenário. E a sua causa será sempre o seu interesse pessoal e o seu bolso.
Segundo nos conta a História, Anatole France, ao falar a novos magistrados, discorreu sobre as virtudes que deveriam cingir um juiz, sendo indagado, posteriormente, se não esquecera de mencionar a honestidade, ao que o eminente intelectual respondeu que não falava senão a magistrados honestos, uma vez que a desonestidade não era para ser tratada naquela ocasião, mas em matéria de direito penal, até porque, na sua ótica, o desonesto não era um juiz, mas tão-somente um criminoso.
Ora, a meu ver, um juiz, embora destituído de inteligência brilhante, mas honesto, sempre procurará suprir a sua deficiência através do estudo, da consulta aos mestres e por meio de um longo labor e meditação. Além do mais, acredito que, aos homens de bem e de boa vontade, Deus termina por lhes dar as necessárias condições do bom exercício de seu trabalho, porquanto esses homens procuram superar as suas deficiências mediante o esforço, a organização e a disciplina.
No Sermão da Montanha, Cristo disse que bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça porque seriam saciados. Cabe-nos a nós, os magistrados, na medida de nossa força e esforço, saciarmos essa fome e essa sede, promovendo a prestação jurisdicional de forma justa e rápida, pois muitas vezes uma justiça tardia e morosa é inócua ou até mesmo injusta e parcial.
Parafraseando Agostinho Neto, estadista angolano, direi que não é preciso apenas que seja justa e boa a nossa causa, mas é necessário, sobretudo, que a justiça e a bondade estejam dentro de nós. Isto porque se construirmos um barco dentro da mais perfeita técnica e da mais avançada aerodinâmica, mas com madeira podre e carcomida, essa embarcação terminará por naufragar. De igual modo, ainda que na linguagem dos anjos preguemos a bondade e a justiça, mas não a tivermos dentro de nós, terminaremos por não chegar a lugar nenhum, ou por desistir em face de nossa falta de convicção, ou por não adquirir a necessária credibilidade junto aos outros.
Não devemos ter medo de ser bons. Ao contrário, devemos temer ser maus. Hoje se sabe que a saúde física depende de nossa saúde mental. Mais do que nunca, continua atual o velho brocardo latino do mens sana in corpore sano. A medicina de hoje sabe que a saúde é psicossomática, concorrendo o bem-estar espiritual para a saúde física. É certo que quando plantamos o bem colhemos o bem, e quando semeamos o mal coletamos o mal. Não foi outro, senão este, o sentido da frase em que Cristo disse que quem com o ferro feria, com o ferro haveria de ser ferido. E sempre recebemos o bem que fazemos de forma multiplicada, tanto que assim me expressei no meu poema Desiderata:
                                           Sê bom e caridoso contigo mesmo:
                                           lança o bumerangue da bondade e da caridade.
Quando tivermos a certeza de que a nossa decisão é justa, jamais deveremos ceder aos clamores das massas ou às pressões da mídia. Nunca deveremos lavar as mãos como o fez Pilatos, em função de nossa comodidade ou conveniência pessoal.
Deveremos lavar nossas mãos, sim, mas para tê-las sempre limpas, através da prática de decisões justas, imparciais, e sem perder de vista a nossa humanidade e bondade. E sabendo que quem é justo é bom e que quem é bom é justo, pois não existe justiça sem bondade e nem bondade sem justiça.
                                     
 
                        ELOGIO DA SAUDADE (*)
                               
                                 Elmar Carvalho
 
Dizem que não existe, em nenhuma outra língua, uma palavra que traduza com exatidão a palavra saudade, na acepção precisa em que está em nosso Português, a evocar o sentimento de ausência deixado pelas longas viagens empreendidas pelas naus portuguesas, nas distâncias esquecidas em que muitas vezes se perdiam.
 
O vocábulo saudade contém muitas nuanças, matizes e gradações. Às vezes é a evocação de um tempo para sempre perdido e que insistimos em recordar com nostalgia, como se o pudéssemos resgatar da lonjura do passado. E sobre esse passado que teimamos em querer recapturar em nossa memória, assim me pronunciei em meu poema Eterno Retorno:
 
memória:
lâmina de desassossego
cornucópia insana insaciável
a jorrar o passado
que não morre nunca
sempre ressuscitado
no eterno regresso
a nós mesmos.
 
Muitas vezes uma música que nos marcou em determinada época tem o condão de nos transportar, com muita intensidade e com as mesmas emoções, àquela época que ainda vive em nossa lembrança. O imortal seresteiro Sílvio Caldas, com sua bela e poderosa voz, na canção Velho Realejo diz, referindo-se ao tempo de sua infância, que, na tarde fria e calma, ouvia ainda tocar o realejo, que lhe povoara de melodias e sonhos os longes do passado.
 
Outras vezes é a recendência de um perfume que desencadeia as emoções consubstanciadas na saudade. E as lembranças acorrem com tamanha força que até parece que a nossa alma fez um mergulho naquele tempo de nossa evocação. É como se tivéssemos ressuscitado o pretérito, conforme digo em meu poema já citado:
 
o passado poderoso e renitente
retorna e continua vívido e presente
se contorcendo se retorcendo
                        e se reacontecendo.
 
Tenho a impressão de que o sentimento da saudade desenvolve um processo em nosso cérebro, em que todas as células e neurônios, ligados à memória, passam a funcionar em sua capacidade máxima, e como se fora uma máquina do tempo, uma espécie de túnel do tempo da ficção científica, nos levam ao tempo perdido, e sempre achado, porquanto sempre memorado, onde vivenciamos os mesmos sentimentos e sensações de outrora, em que sentimos os mesmos aromas e sabores, e ouvimos a música que nos afagou os ouvidos e o sino imortal de nossa aldeia, que ainda continua tinindo e retinindo e repicando em nossa vida afora. E o tempo de nossa infância retorna, como nos imortais versos do poeta Casimiro de Abreu:
 
Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
a minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
 
Sentimos saudade do que foi e se foi e sentimos saudade do que poderia ter sido. E, o que é mais paradoxal, sentimos saudade até do que ainda vamos perder, pois o que é uma Aula da Saudade senão a nostalgia precoce da separação que ainda não ocorreu, da perda de um tempo que ainda não se exauriu, e que de qualquer forma permanecerá sempre vivo em nossa retentiva. Mas vou além: digo que sentimos saudade até da própria saudade, como muito bem disse o poeta Cunha Neto, meu conterrâneo da encantadora e encantada Terra dos Carnaubais:
 
Tenho saudade de tudo
Saudade até da saudade
Digam que seja maldade
Mas sou um sentimental
 
Não poderia, contudo, deixar de fazer uma referência especial ao nosso poeta maior – o Poeta da Saudade e do Velho Monge – o excelso poeta Da Costa e Silva, que sintetizou num único e pequenino verso, esse sentimento mágico e maravilhoso, de que hoje nos ocupamos, e que foi mandado gravar por meu pai na lápide do túmulo de minha irmã Josélia, que tão cedo se foi desta vida descontente:
 
Saudade! Asa de dor do pensamento!
 
Eu próprio quanta saudade sinto do tempo já distante de minha adolescência, em que eu via as jovens e esperançosas normalistas, vestidas de azul e branco, como na inesquecível canção do boêmio e seresteiro Nelson Gonçalves, quando iam à velha escola normal ou dela voltavam, a fazerem a festa e a alegria da rapaziada de então. Era um verdadeiro desfile de graça, beleza e juventude.
 
Até me faz lembrar uma anedota verdadeira de um governador mineiro, que contemplava, embevecido, da janela do palácio, um casal de namorados. Ao ser indagado por um assessor se sentia inveja deles, respondeu que não, que sentia saudade. Pois é, meus amigos e minhas amigas, o que eu sinto também é saudade, e a saudade é uma verdadeira rede que nos envolve e aprisiona, e quanto mais nos debatemos, mais nos aprisionamos e nos debatemos em vão, porque, como eu próprio disse num de meus poemas:
 
(A solidão é uma aranha
tecendo teias de saudade
onde ela própria se enleia)
 
O professor Balduíno Barbosa de Deus, de saudosa e imperecível memória, meu amigo e meu mestre no Curso de Direito da Universidade Federal do Piauí, citado pelo igualmente meu mestre e amigo, professor Rosmarino do Rêgo Monteiro, que proferiu belas e inesquecíveis aulas da saudade, artista consumado nesse mister, assim se pronunciou sobre esse nobre sentimento, em duas magistrais trovas:
 
Saudade – sino que plange
na catedral do meu peito,
chorando a morte de um sonho
que tão cedo foi desfeito!...
 
Saudade – é folha caída
e pelo vento levada...
Saudade – é tudo na vida,
Saudade – é tudo e é nada...
 
Meus caros novéis professores: partem vocês agora, como aves de arribação, em feliz revoada, pela vida afora, em busca de desenvolverem suas atividades profissionais. Como todos os jovens, seguem cheios de esperança, de sonhos e de ideais. Estes apanágios vocês hão de sempre conduzir, para que não se tornem, prematuramente, velhos, e para que na velhice sejam os mesmos jovens de hoje e de sempre.
 
Sigam orgulhosos, de fronte erguida, porque nenhuma profissão, por mais importante que seja, por mais status que tenha, é mais nobre que a atividade de um verdadeiro e honesto professor, que são autênticos pais espirituais de várias gerações. E os grandes homens, quando realmente são grandes, sempre lembram, com saudade e gratidão, de seus velhos mestres. Tanto que o extraordinário cantor e compositor Ataulfo Alves, no samba Meus tempos de criança, declara a sua saudade pela professorinha que lhe ensinou o bê-a-bá. Todavia, é preciso que se diga: procurem honrar o magistério e não apenas serem honrados por essa sublime atividade. Superem-se a si mesmos e adquiram a grandeza de um legítimo mestre, pela palavra e pelo exemplo.
 
Os grandes estudiosos da mente, desde o sábio e filósofo imperador romano Marco Aurélio até os dos nossos dias, apregoam que o homem é o que ele pensa ser. Cultivem, pois, os pensamentos positivos e os nobres ideais, esforcem-se por concretizar seus legítimos desejos, e serão contemplados com a realização de seus sonhos. Não percam jamais a Esperança, uma das virtudes teologais, porque é ela que há de os manter em pé, na hora da adversidade. O medo se alimenta e cresce com o próprio medo. Portanto, afugentem os maus pensamentos, como se fossem aves de rapina e de mau presságio.
 
Ninguém tem o direito de enfear e de entristecer o mundo. Portanto, sejam alegres e belos, ao menos no desejo e na vontade de o serem, que certamente o serão. O verdadeiro vitorioso não é quem conquistou milhões e o mundo, mas sim aquele que contribui para tornar o mundo melhor, seja com um sorriso, seja com uma palavra de incentivo, seja com um gesto de amparo, afeto e afago. Não tenham receio de ser bons e caridosos, porquanto a bondade e a caridade são um bumerangue que retorna mais vigoroso e maior àquele que o lançou.
 
No belo poema O Homem que volta, o poeta Da Costa e Silva diz que quando foi, com o seu sonho ingênuo e lindo, as Graças vinham desfolhando rosas, e quando veio, com o seu tédio miserando, iam as Parcas espalhando espinhos. Cuidem, repito, em cultivar a Esperança, os nobres ideais e os sãos desejos, para que a estrada que vocês percorrerem seja sempre florida e agradável. Cuidem para que os reveses não sejam considerados quedas, mas apenas uma experiência a mais, para o aperfeiçoamento e para novas e mais audazes empreitadas.
 
E certamente os seus caminhos serão largas, luminosas e aprazíveis alamedas, em que as Graças irão espargindo risos e esfolhando rosas, e o sucesso há de lhes bater à porta, como um irresistível chamado de sincera e bondosa sereia, sem naufrágios e perdições de nenhuma sorte.
 
(*) Aula da Saudade, pronunciada na cidade de Água Branca – PI, no dia 08 de janeiro de 1999, às 19 horas, como parte do encerramento do curso de Pedagogia (UESPI).
 
 
                                   UMA BELA MORTE
 
                                                     Elmar Carvalho
 
O poeta Da Costa e Silva, em seu belo e filosofal poema Síntese, afirma que “O que abala e intimida / O meu espírito forte / Não é a certeza da morte, / Mas a incerteza da vida”. Na verdade, a certeza absoluta que temos é a certeza da morte. Por isso, a morte deveria ser encarada com naturalidade e sem temor. Entretanto, talvez pelo desejo do transcendentalismo e da infinitude, sempre sonhamos com a vida eterna, ainda que passando pela morte.
Outra preocupação é como a nossa morte vai acontecer. Alguns, talvez privilegiados, passam da pequena morte do sono para a grande morte, inconscientemente. Outros morrem de forma serena e consciente, confiantes e sem temor. Consta que um grande escritor, um dos maiores ironistas da humanidade, cujas ironias ferinas e criativas eram lapidarmente admiráveis, teve um final melancólico e indesejável, porquanto no ocaso de sua brilhante vida passou a comer seus próprios excrementos e morreu transido do mais pusilânime pavor. Muitos morrem agarrando-se aos circunstantes e aos médicos, implorando para não morrer a um outro mortal. No texto em que Platão narra a morte de Sócrates, vê-se que este foi um homem que soube morrer. Condenado a sorver uma taça de cicuta, seus amigos o advertiram que, se ele abjurasse suas idéias, poderia salvar-se. Contudo, preferiu a morte para se manter coerente e digno. Sem dúvida, foi uma bela morte, narrada num igualmente belo necrológio, um ocaso travestido de apoteose, quase como se fora uma espetacular cena cinematográfica. Contrariamente, Galileu Galilei, para evitar a morte na fogueira, condenado que seria pela “santa” Inquisição, jurou renegar o heliocentrismo, ou seja, que a Terra girasse ao redor do Sol, embora, segundo dizem, murmurasse/rosnasse: eppur se muove... Aquele que suportasse as chamas da fogueira inquisitorial, que lhe atirasse a primeira pedra. Enquanto uns morrem de forma higiênica, calma e consciente, outros morrem subitamente, em trágicos acidentes e emboscadas, com o corpo dilacerado e sangrento, em meio a dores terríveis, ou ainda consumido pelas chamas de uma explosão imprevista.
Há os que rezam a Nossa Senhora da Boa Morte, obviamente no intuito de terem uma boa morte, se tal é possível, ou, ao menos, não desagradável. Alguns chegam a alcançar a graça de saber o dia e a hora em que advirá o termo de seus dias, preparando-se, espiritual e materialmente, para o inelutável epílogo. Como no poema de Manuel Bandeira, colocam cada coisa em seu devido lugar, para que a “indesejada das gentes” não os surpreenda em meio ao caos e o terror.
Joaquim Lustosa Nogueira era um homem bom e sábio. Sua presença era algo sempre desejável. Parecia transmitir paz e fluidos benéficos a quem gozava de sua companhia. Amante inveterado dos livros, sempre os conduzia nos alforjes de sua equipagem, nas viagens que empreendia entre Parnaguá, Corrente e adjacências. Espargir o bem, o bom e o belo era de sua índole, seja através de palavras, seja mediante ações.
Idoso, resolveu desfazer-se de seus bens materiais. Tratou de fazer a partilha de seu patrimônio entre seus filhos, de forma que não deixasse as indesejáveis sequelas do ressentimento, da insatisfação e das expectativas frustradas. Indagado sobre se não ficava preocupado por não ter mais bens, respondia que seus filhos não o deixariam passar fome. E assim, franciscanamente, continuou sua vida.
Um dia, à tarde, chegou a casa de uma de suas filhas. Calmamente desceu do cavalo. Adentrou a sala, conduzindo apenas uma muda de roupa sob o braço. Dirigiu-se ao banheiro, onde tomou um banho e vestiu a roupa limpa. Retornou ao recinto onde se encontrava sua filha, sentada a uma mesa. Sentou-se a seu lado e começou a falar, de forma suave e serena, como lhe era habitual.
Disse-lhe que agradecia por tudo de bom que ela lhe havia feito. A filha lhe respondeu que ele nada tinha que agradecer, pois apenas cumprira seu dever para com seu pai, um homem bom e digno. Ele, porém, insistiu no agradecimento, afirmando que ela fora uma boa e dedicada filha. Fez recomendações acerca de seu funeral, e dispôs sobre onde gostaria de ser sepultado. Afirmou estar morrendo. A filha disse que não, que ele ainda viveria muito tempo. Mas quando se voltou, viu que o pai se estava finando.
Serenamente, sem um suspiro que não fosse mais leve que a mais leve brisa, qual uma vela cuja chama se extingue harmoniosamente, sem oscilações e vacilações, após cumprida a sua missão de iluminar, consumindo-se em seu próprio mister, sem um esgar, sem um ricto que lhe vincasse a feição composta, morreu, como se apenas meditasse ou dormisse.
 
Por José Elmar de Mélo Carvalho
 
 
    
 

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