A CHACINA DOS URUBUS
Elmar Carvalho
Desde criança sempre tive uma certa inveja da planação soberba dos urubus. Contemplava a beleza de seu vôo majestoso, com a sua plumagem negra, de grande porte, recortando-se contra a cortina azul do céu. Aliás, o céu parecia somente existir para realçar as evoluções desse vôo encantado. E lamentava não ter asas para também voar, em perfeita liberdade.
Ainda hoje me perco a contemplar essas aves, em sua elegante planação, em sua bela dança de caprichosa coreografia. Sempre lhes tive o mais profundo respeito e admiração, porque são elas, que não matam nem sujam, que concorrem para a limpeza e melhor aromatização do mundo, agora tão poluído e tão degradado. Também lhes tenho inveja da saúde de ferro, pois, apesar de comerem o que comem, ainda são cheias de saúde e vitalidade.
Pela sua cor negra e por se alimentarem de animais mortos, são os urubus associados à idéia de morte, a agouros e maus presságios, tanto que o poeta Augusto dos Anjos, do alto de seu mais profundo pessimismo, queixou-se: “Ah! um urubu pousou em minha sorte!”
Igualmente, várias vezes, tenho cantado essas aves, mas sem o negativismo do sublime poeta da morte e da degradação. Sobre elas, assim me pronunciei em minha apresentação ao meu livro Rosa dos Ventos Gerais: “(...) Acredito que o belo seja um objetivo em si mesmo, ou seja, o belo é útil, e a sua utilidade é a sua própria beleza. Um pavão foi projetado para ser belo, assim como um urubu foi criado para ser um gari alado, e ambos são úteis e necessários: um pela sua beleza, o outro por ser um operário instintivo da limpeza. Agora, se um urubu, além da diligência de sua faxina diária, tivesse uma bela plumagem e um belo canto, creio que nenhum prejuízo haveria, assim como não existe nenhum prejuízo em que um poema possa ser belo e útil, e ele sempre será útil pelo simples fato de ser belo”. Destarte, poderia dizer que o vôo de um urubu sempre será belo, e que o seu trabalho de gari alado ou operário alado da limpeza, sem remuneração, sem greves e sem direitos trabalhistas, além de sublime é também belo pelas lições que encerra, entre as quais as de limpar as sujeiras que os outros fazem.
Como já disse, sempre apreciei o voar dos urubus, as suas revoadas artísticas, o seu balé discreto e ágil, a sua coreografia aérea e perfeita, em que humilham a solidez pesada e a força da gravidade. Numa dessas vezes em que observava a sua plumagem negra recortando-se contra o céu, deparei-me com o fulgor de dois olhos azuis contrastando com a seda negra de um guarda-sol, que me deu ensejo a esse poeminha despretensioso: “no céu azul / um urubu // sob o negror / do guarda-sol / o pelotão azul / de teus olhos / da sombra / me fuzilou”.
Não bastasse o vôo majestoso, o caminhado também é artístico, um legítimo caminhar gingado de autêntico malandro carioca, quase como se estivesse brincando ou dançando, quase levitando, ou como se estivesse pisando nas plumas das nuvens.
Tenho cantado os pequeninos e ariscos animais, tenho cantado os monumentais paquidermes, os caminhos intrincados das formigas, os labirintos subterrâneos dos cupins, as trombetas altissonantes dos galos, os latidos noturnos dos cães, às vezes chamados sem resposta por alguma cadela sem cio. E lamentei em versos um cachorrinho esmagado no asfalto.
Lamento agora a chacina dos urubus. Tão sem sentido, tão gratuita e tão estúpida... Mortos talvez porque limpavam as sujeiras que a besta “humana” desumana que os matou produzia. Vi, pela TV, um urubu trôpego, atônito, assustado, nas vascas da agonia silenciosa e solitária, a verter do bico adunco um fio viscoso, quase invisível, talvez a sua essência espiritual e divina, entre vários irmãos mortos, em cena verdadeiramente tétrica e dantesca, como se pressentisse, sem entender, a sua própria morte perpetrada. Ainda vi, na tela luminosa do televisor, um caminhão de lixo, cheio de urubus, carregando, para o cemitério dos aterros sanitários, essas aves que faziam a faxina cotidiana da cidade.
Triste, de luto fechado, como se dizia outrora, “estendo a tarja negra dos mortos / na planação solene dos urubus”, como disse no meu poema Viagem, que é uma viagem de vida e não de morte.
Que os urubus mortos descansem em paz e que o monstro que os matou sorva o trago venenoso e amargo do remorso, até o seu arrependimento total e redenção.
A ILHA DO SONHO E DO ENCANTO
Elmar Carvalho
De súbito o velho e empoeirado ônibus deixou a esburacada estrada carroçável e entrou por uma vereda de chão desnudo.
Quando dei por mim o veículo mergulhava num abismo. Só que em vez de despencar adejava suavemente. A paisagem, algo surreal, era de uma beleza jamais vista.
As árvores, de variados tamanhos, eram muito vivas, bem verdes e brilhantes, de diferentes formas e folhagens, luxuosas, luxuriosas, luxuriantes, e se embalavam e acenavam e bracejavam, movidas por vontade própria, interagindo com a gente.
Embora sentado numa desconfortável poltrona eu tudo via, com impressionante facilidade. Só agora me causa espanto como é que de uma estreita janela de um anacrônico veículo eu pudesse ter aquela visão panorâmica.
Vi uma caprichosa escultura, criada aparentemente pela natureza, através do cinzel da chuva, do vento e do tempo, feita de areia suspensa no ar, formando arcos de uma gruta e desenhando góticas estalactites. Surpreendentemente a matéria arenosa parecia macios e diáfanos flocos de nuvens, até mesmo pelo fato de que pairava sobre a orla do lago, sem necessidade de escoras e esteios, com os seus arabescos e rococós.
Na verdade essa gruta era o pórtico de entrada, por onde o ônibus passou, que dava para um lago de estranha água levemente azulada e fosforescente, e efervescente como se nela houvera mergulhado um imenso Sonrisal, na qual nadavam uns graciosos peixes, multicoloridos e fosfóreos, sobre a qual passávamos, em verdadeira levitação. Nas rochas que emergiam do líquido elemento pousavam cândidas sereias, algumas metade peixes e outras metade pássaros, todas de voz maviosa e alucinante. Tinham esplêndida forma e exuberantes seios divinais, esculpidos com perfeição natural, e não bombados a silicone.
Sem se saber como, surgiram grandes e magníficas esculturas, que pareciam de terra, mas que eram ao mesmo tempo de cobre e ouro, de perfeição nunca vista. Eram grandes e estranhas formas, sem pedestais, completamente soltas no ar. Lembravam estilizadas catedrais, suntuosas mesquitas, altíssimas torres e minaretes, encarapuçados nas nuvens.
As casas e castelos não pareciam obra de arquitetura, mas bizarras e belas criações de um escultor genial e maluco. Genialmente maluco.
As próprias montanhas e colinas pareciam pertencer a uma outra dimensão ou a um estranho planeta, em suas formas inimagináveis e brumosas.
Num dado momento tive medo de que o ônibus despencasse e fizesse um fatal mergulho na fosforescência mágica daquela água. Com o meu pânico o ônibus começou a cair, mas imediatamente recuperei minha fé e ele passou a flutuar sobre a efervescência da água, mais suavemente que um veleiro. Depois, alçou vôo novamente.
Quando menos esperei começaram a passar grandes e desengonçados pássaros, semelhantes aos da pré-história, contudo de suave e elegante vôo, em que planavam fazendo as mais esquisitas e belas coreografias que meus olhos já viram, na verdade um alucinante balé, sob a regência de um pássaro-rei, o uirapuru talvez daquelas criaturas, que entoava um canto, sublime e inaudito e inefável, que acaso se rivalizava com o coro dos anjos e arcanjos, por nós (in)imaginados.
Não sei bem como - o tempo e o espaço não faziam nenhum sentido - me encontrei caminhando por estreitas e tortuosas ruas daquela ilha. A luminosidade era frágil, frígida, fosca, furtiva, como se não fosse nem dia nem noite. Uma lua de cristal, próxima e grande, emitia sua pálida e prateada luz. Estrelas brilhavam, estranhamente próximas, com muita intensidade e rápido piscar. Tinham variadas formas e cores, e se movimentavam em labiríntico bailado. Cometas circulavam, movimentando a cauda, como descomunais cabeças-de-prego, mais rebolantes que uma top-model, deslumbradas e deslumbrantes sobre a passarela. O céu era furta-cor. Na verdade, tudo aquilo mais parecia um gigantesco e mágico caleidoscópio.
A suavidade permanente do vento era talvez um sopro de Deus. Refrescante. Revigorante. Extasiante. Nele se pressentia uns leves laivos de cor e substância. Quase se podia retê-lo entre os dedos. Deixava uma sensação de paz e beatitude.
Como se estivessem saindo de um templo e fizessem parte de uma invisível quermesse, vi várias pessoas, de ares estranhos. Solenes e severas. Passei por elas e as contemplei muito bem. Contudo, elas pareciam não me ver e eu não as conseguia tocar. Para minha perplexidade, algumas eram pessoas amigas, já mortas, mas que ali estavam bem vivas, metidas em elegantes fatiotas. Não me percebiam e nem me ouviam, por mais que eu me esforçasse para ser notado.
Novamente, sem que eu me desse conta, estava novamente a voar, dentro do velho ônibus, como se estivéssemos retornando. Passamos por esculturas de grandes animais - elegantes elefantes, belos búfalos, girafas, alvijubados leões, encouraçados rinocerontes, imemoriais dinossauros, unicórnios lendários - sem asas, mas de vôo glorioso. Depois, percebi que elas ganharam vida e se esgarçavam no ar, como fiapos de nuvens e gazas.
A paisagem mudou. De repente. Agora eram vastos tabuleiros, de terra revolvida, como se tivesse sido arada, mas cujos sulcos formavam estranhas pinturas geométricas e ao mesmo tempo abstratas. Uma dessas telas era um gigantesco tabuleiro de xadrez, em que cupins erigiram, de modo pertinente, perfeitas peças em forma de torres, cavalos, reis e rainhas, que se moviam por vontade própria, como se formassem dois exércitos em acirrado combate.
De súbito, acordei assustado. O ônibus havia estourado um pneu e levantava um forte e vermelha nuvem de poeira. Estávamos, ao alvorecer, em plena e plana paisagem dos cerrados piauienses.
Estávamos a caminho da longínqua e bucólica Ribeiro Gonçalves, recortada pela sinuosidade do “Velho Monge” e pelas colinas que a emolduram e engalanam.
ANITA
Elmar Carvalho
Parece um floco ambulante de nuvem ou de algodão. É o mimo predileto da casa. Pacote vivo de pura maciez.
Seu caminhar é sinuoso, coleante, elegante. Uma elegância discreta e natural. Caminha como se desfilasse, mas sem se preocupar com os olhares de admiração. Uma verdadeira micro top model, por mais paradoxal que seja a frase.
Quando é vista na rua, desperta olhares embevecidos. Mas, desprovida de vaidade, sequer percebe essa varredura visual.
Até para comer, é toda cheia de graça. Concentra-se no que está fazendo, e os rictos que faz para morder são um ritual de beleza.
Entre vários que havia, veio para nós como uma dádiva. Parece que nos havia sido feita de encomenda, tal a afeição que despertou em nossa família. E ela corresponde na mesma intensidade a esse sentimento. Adotou-nos e foi por nós adotada, passando a ser parte integrante da família.
Durante certo tempo, curtiu uma micose que lhe fez cair o pelo do pescoço. Feria-se ao se coçar. Por essa razão, pusemos um prato adaptado em seu pescoço, para que não se ferisse. Pensaram que Anita estava a lançar moda, porque o artefato realçava a beleza de sua já formosa cabeça.
Certa vez, minha mulher mandou desinsetizar a casa. Anita inquieta e buliçosa e curiosa, pois é muito inteligente, terminou lambendo um pouco do veneno que não fora retirado na lavagem. Ficou muito doente, fraquinha, como se fosse morrer. Eu estava distante, quando soube da notícia pelo telefone. Fiquei muito triste e preocupado. Deus, contudo, lhe devolveu a saúde e o vigor, porque sabia que precisávamos mais dela do que ela de nós.
Mas ela tem as suas manhas e manias. Como uma prima-dona tem os seus chiliques e caprichos. Às vezes, é muito voluntariosa, e só quer as coisas do seu jeito. Nada podemos fazer. Seja feita a sua vontade. Supinamente inteligente e com certa dose de “cascão”, percebe quando vai ser levada para o banho, passando a se esconder nos lugares mais recônditos e inusitados. Não vai, vai arrastada, pode-se dizer. Adora ser coçada na barriga. Quando paramos de coçá-la, com a patinha puxa nossa mão, para que continuemos a operação coça-coça. Da raça toy, faz jus ao nome: é literalmente o nosso brinquedo preferido.
Tem linguagem própria e bem definida, para os seus diferentes caprichos e desejos. Para entrar num quarto, arranha a porta. Para sair, fica postada diante da porta. Se demoramos a abri-la, começa a grunhir, como se pedisse "por favor". Se ainda assim não abrimos, late com o verbo no imperativo, dando uma ordem incontrastável, um verdadeiro ultimatum. Temos que obedecer. Já me considero o seu porteiro número um. Se deseja ir para cima da cama, late de um jeito. Se quer descer, late, digo, pede de outra forma, em outro tom e timbre. Porém, se nos alongamos em atendê-la, o latido torna-se imperioso, estridente e irrecusável.
Como a vida tem os seus contrastes e confrontos, havia em nossa casa uma cadela grande, uma fiel guardiã da residência. Não era mimada como Anita o era. Vivia no quintal. Era brava, sem bravata. Era bela, em sua beleza graúda e forte. Como eu trabalhasse em outra cidade, ela me estranhava, de modo que eu nunca a afaguei e nunca tive o prazer de sua amizade e fidelidade. Esse nobre animal contraiu calazar, pelo que me senti no dever de determinar o seu sacrifício. Também o fiz por desencargo de consciência, temendo o contágio da vizinhança. Não sei se nesse dever e nesse ato de consciência não haveria também certa dose de pusilanimidade e de utilização da lei do menor esforço e trabalho. Soube que, durante certo período, o órgão local encarregado do sacrifício de animais utilizava, por economia e rapidez, o método brutal de aplicação de choque elétrico. Para minimizar o meu remorso, levei-a para uma clínica particular e paguei a sua morte suave, através de drogas. Levaram-na para o local em que ficaria segregada até a “morte misericordiosa”. O veterinário me perguntou se eu gostaria de vê-la pela última vez. Disse que sim. Chegando até o cubículo em que ela se encontrava, vi os seus olhos tristes, os olhos tristonhos de quem se sentia abandonada pelos entes que ela mais amava e que deveriam protegê-la, qual se adivinhasse o que lhe aguardava e como se considerasse aquilo um ato de covardia e ingratidão. Mas, ao me enxergar, olhou-me altivamente, latiu com força, como se me estivesse mandando sair, como se dissesse: Recuso a tua piedade hipócrita e pusilânime. Talvez tenha feito isso por piedade, para que o meu remorso fosse mitigado. Voltei-lhe as costas, e saí cabisbaixo e envergonhado. Eu é que saía com o “rabo entre as pernas”. Senti-me um trapo, ante a nobreza daquela cachorra. Era um bravo, fiel e belo animal. Espero que ela tenha uma alma e esteja no paraíso dos animais. Chamava-se Kika.
Após esse parêntese de homenagem a Kika, retomo a apologia de Anita. Através do amor dessa mimosa cadelinha, passei a gostar dos outros animais e a tentar interagir com eles. Não gostava dos cães vadios, mas, por causa dela, passei a lamentar a sorte desses animais. Passei a mais admirar meu pai, ao vê-lo alimentando as aves que pousam em suas fruteiras e alguns vira-latas abandonados, que ficam a espreitá-lo, com os olhos esperançosos e pidões, do portão de sua casa.
Quando volto de viagem, Anita me vem receber, saltitante, elétrica, balançando o rabinho, em sinal de sua alegria, ou correndo em minha volta, galvanizada em pura vida e em puro regozijo. Quando está no colo de alguém, dá-me as patinhas, querendo o meu conchego.
Muitas vezes, quedo-me a admirar o seu formoso nariz de piche e a sua bela lingüinha de fita escarlate, no contraste artístico com a plumagem clara.
Em suas memórias, Humberto de Campos refere-se a uma mulher do povo, que andava acompanhada de um verdadeiro séqüito de cães, que formavam a sua guarda, como se ela fora uma espécie de Diana. Li que o grande Clóvis Beviláqua tinha amor aos animais, tanto que alguns passarinhos adejavam dentro de sua casa, pousando em seus móveis, talvez em sua biblioteca. Ouvi falar de um homem, que, ao falecer, teve o seu sepultamento acompanhado por um bando de aves, quiçá uma celestial homenagem a alguém que amara os passarinhos. Com Anita, repito, passei a respeitar e estimar as criaturas de Deus. Aliás, em Atos dos Apóstolos, consta que Pedro teve uma visão, em que um grande painel descia dos céus, com “toda sorte de quadrúpedes e bichos rastejantes da terra e aves do céu” estampados nele. Tendo esse apóstolo dito que não comeria os animais aviltados e impuros, foi repreendido por uma voz, para que não mais chamasse de impuros os seres feitos pela mão divina. Todos têm a sua beleza, todos têm a sua serventia e todos amam e querem continuar vivos. Amemo-los e deixemo-los vivos e em paz, para gáudio nosso e glória do Senhor.
Na pequenina Anita, contemplo a imensidão de sua beleza e bravura, aliás, bravura inversamente proporcional ao seu gracioso, porém, minúsculo porte. Relembro a lapidar, literalmente lapidar frase do imenso poeta Lord Byron, referente ao seu inesquecível cão: “Aqui jazem os restos mortais de um ser que possuiu a beleza sem vaidade, a força sem a insolência, o valor sem a ferocidade e todas as virtudes dos homens sem os seus vícios. Aqui estão os restos de um amigo. Eu não conheci mais nenhum, senão este que aqui repousa e dorme o sono eterno.”
Quando o divino Mozart foi sepultado, num dia cinzento, frio, encoberto por espessas névoas, fustigado, em certos momentos, por violenta borrasca de neve, ninguém acompanhou a entrega de seu corpo aos cuidados da mãe terra, salvo o coveiro. Exceto o coveiro, sim, e o seu devotado cãozinho branco, que o acompanhou, como amigo fiel que era, prestando-lhe a sua última e saudosa homenagem. E, talvez, tenha orvalhado o seu túmulo com lágrimas sentidas.
E ao lembrar os cães de Byron e de Mozart, sei que a centelha divina do amor sem jaça, que pulsava neles, também pulsa na alma de minha pequenina e graciosa Anita.
ZÉ HENRIQUE
Elmar Carvalho
Mais do que meu cunhado, era meu amigo.
Dele eu poderia dizer o que refere a velha música do Roberto Carlos: era meu amigo de fé, meu irmão, camarada. Quando foi descoberta a minha neoplasia, de que me considero curado, preocupou-se muito, e ao contar o fato a um amigo comum chegou a verter, emocionado, lágrimas puras, que não envergonham.
Humberto de Campos escreveu um livro titulado Sepultando meus Mortos, no qual estão estampadas várias crônicas, em homenagem aos seus amigos que iam falecendo. Eu, também, já me vou alargando em laudas, por causa de muitos amigos que já foram convocados pela “indesejada das gentes”, no dizer do velho bardo Manuel Bandeira, sobre os quais escrevi. Em meu poema Eterno Retorno, afirmei que os amigos mortos me acompanham cada vez mais vivos. Zé Henrique será, agora, um desses amigos cada vez mais vivos.
Sem dúvida tinha sua cota de defeitos, como todos nós, mas eu já os havia expungido de há muito, porque suas qualidades os superavam com larga margem de vantagem.
Até sua aparente zanga, nas discussões e polêmicas que, às vezes, provocava, era apenas um artifício para apimentar a conversa e reavivar suas amizades, com o tempero da paixão e da ênfase. Após o debate, era o mesmo velho amigo de sempre, sem nenhuma mágoa, sempre prestativo, sempre disposto a fazer os favores que estivessem a seu alcance, e muitas vezes nem estavam, mas ainda assim ele os fazia. No entanto, se desconfiasse que havia, mesmo de leve, magoado o interlocutor, pedia, da maneira mais natural e simpática, desculpa ou mesmo perdão, se necessário, com o seu carisma inato e espontâneo. Se fosse convencido de que estava enganado, igualmente dava a mão à palmatória, sem nenhum constrangimento ou suscetibilidade ferida, desprovido que o era de orgulho e vaidade, embora dotado de brio e auto-estima.
Muitas dessas discussões giravam em torno dos descaminhos da má política, porque Zé Henrique possuía a capacidade de se indignar contra os demagogos de plantão, contra os hipócritas que vivem de iludir a boa-fé das pessoas humildes, contra os ladrões das finanças públicas. Era um profeta legítimo, a proferir verrinas e catilinárias, em sua ira sagrada, contra os vendilhões do templo dos erários municipais, estaduais e federais.
De bom coração, generoso, algumas vezes comprava fiado no comércio onde se encontrava para dar alimento a um pobrezinho que ali chegava, de forma simples, sem empáfia e sem presunção, como prega o Evangelho.
Meu irmão Antônio José, homem maduro, chorou copiosamente, ao dar a notícia de sua morte a minha mãe. Meu filho João Miguel, um adolescente, escreveu emocionado testemunho, quando soube de seu falecimento, sobre cujo texto derramou profusas lágrimas. Essas lágrimas de um homem traquejado e de um jovem inexperto são mais eloqüentes do que o mais eloqüente epitáfio, e provam que Zé Henrique foi um ser humano excepcional em sua bondade e humanidade. Quem merece essas lágrimas, merece, como disse o poeta Antero do Quental, repousar na mão de Deus eternamente.
Embora não fosse um erudito, era bem informado, supinamente inteligente, de raciocínio ágil e arguto. Rapidamente apreendia e processava as informações que recebia, de modo que conversar com ele era uma ginástica mental instigante e agradável.
Parece que tinha a premonição de partir cedo deste mundo. Muitas vezes me disse isso. Perto de sua morte, como se esse presságio estivesse ainda mais forte, instruiu seu filho sobre alguns deveres e cuidados. Visitou a casa de uns amigos, onde fez questão de entrar no quarto do patriarca, falecido há pouco tempo, evocando-lhe a lembrança. Disse à viúva que não se preocupasse, porque onde o seu marido estivesse, estaria melhor do que neste planeta. Certamente, essa afirmativa é válida também para ele; onde quer que esteja, estará melhor do que aqui, pois tinha merecimento de sobra para alcançar um bom lugar. Na tarde que antecedeu o seu desenlace, telefonou-me sobre um assunto de família, e revelou-me ter se reconciliado com uma pessoa querida, de quem estivera distanciado.Também visitou outros amigos, entre os quais o dono de um barzinho, a pretexto de perguntar se estava devendo alguma cerveja, o que me fez lembrar o episódio sublime da morte de Sócrates, que, ao tomar o cálice mortal de cicuta, pediu a um de seus amigos que pagasse um galo, que estava devendo.
Nas várias e inesquecíveis conversas que tivemos, sempre demonstrou uma grande preocupação espiritual em se tornar um homem digno, em continuamente buscar o aperfeiçoamento, em se tornar melhor, despojando-se de seus defeitos. Que eram poucos e sem gravidade, faço questão de dizê-lo. Todos são testemunhas do que afirmo.
O poeta Carlos Drummond de Andrade disse que a sua Itabira era apenas uma fotografia na parede, mas como doía. Direi, citando-me a mim mesmo, que Zé Henrique jamais será uma fotografia na parede, mas me acompanhará, em minha memória e em minha saudade, cada vez mais vivo.
Na hora da saída do féretro, do alpendre da casa paterna, onde tantas vezes estivemos em momentos felizes, seu pai lhe depôs um beijo na testa, e lhe abriu, pela derradeira vez, os grandes olhos azuis, como se dissesse: “Cuidado, rapaz, ainda continuo sendo o teu velho pai, que te ama muito!”
Reviu, pela última vez aqueles olhos azuis, que nos fitavam de forma penetrante, como se quisessem decifrar e perquirir o que ia no mais profundo de nosso ser. Os olhos eram azuis, mas o sangue e a alma eram vermelhos, como as cores guerreiras do glorioso Caiçara Esporte Clube, de que éramos torcedores.
Guerreiro do bem, do bom e do justo, foi convocado pelo Senhor, em seus inescrutáveis desígnios, para combater o bom combate nas hostes dos campos maiores dos pagos celestiais.
Relembrando os antigos filmes de bang bang, exibidos no velho Cine Nazaré, que em minha memória remanesce intocável, diria a esse companheiro inesquecível:
- Hasta la vista, amigo.