Poesias
Poesias Escolhidas
06/10/2006

 

José Elmar de Mélo Carvalho nasceu em Campo Maior – PI, em 09/04/56. Juiz de Direito. Bacharel em Direito e em Administração de Empresas. Presidiu o Diretório Acadêmico “3 de Março”, a União Brasileira de Escritores do Piauí e o Conselho Editorial da Fundação Cultural Monsenhor Chaves. Foi membro do Conselho Editorial da Universidade Federal do Piauí. Publicou os livros “Rosa dos ventos gerais”, “Cromos de Campo Maior”, “Noturno de Oeiras” e “Sete Cidades – roteiro de um passeio poético e sentimental”. Co-autor do livro “A poesia parnaibana” . Participou de várias antologias, entre as quais “Baião de todos” e “A poesia piauiense no século XX”, organizadas por Cineas Santos e Assis Brasil, respectivamente. Citado em diversos livros e dicionários biográficos. Colaborador de vários jornais e revistas. Membro de diversas entidades literárias e culturais. Detentor de várias honrarias e distinções culturais. Seu livro “Rosa dos ventos gerais” recebeu o prêmio Ribeiro Couto (obra reunida), conferido pela União Brasileira de Escritores – Rio de Janeiro.

 

 
 
 
 
 
AUTOBIOGRAFIA
 
Após seguir os mais ásperos caminhos,
Napoleão avesso, eu próprio me coroei
com uma coroa de cravos e espinhos.
Subi montes, rompi charcos,
atravessei grutas sem luz,
com os ombros esmagados
ao peso de férrea cruz.
Em noites de névoas e luares
sofri e cantei perdido nos lupanares.
Em dias de sol escaldante e incandescente,
fui casto Dante
e Baudelaire delirante e indecente,
pelas tardes mornas de ressacas e orgias.
No Olimpo a que subi em busca
dos mitos, à procura de Zeus,
pregaram-me numa cruz onde
puseram irônica tabuleta: “Rei dos Judeus”.
Por frígida e pálida manhã,
envolto em solidão e neblina,
rasguei e perdi minha toga purpurina.
Cheio de ódio e de amor,
sorvendo taças e mais taças
de bebida balsâmica e malsã,
nos bordéis de Eros, nos templos de Pã,
e nos palácios dourados de Mefisto,
onde sucumbo e resisto,
no meio de mentira e desengano,
fui Satã,
fui Cristo,
fui Humano.
 
O BÚZIO
                              
o búzio
- pequeno castelo
ou gótica catedral -
sobre a mesa avança
envolto em ondas e vendaval
 
anda ondulante
onda cavalgante
onda ante onda
 
atraído pelo chamado
do mar avança
chamado que carrega
nas espirais e labirintos
de sua concha côncava
     
avança e
lança sobre mim
a tessitura exata
de sua arquitetura
abstrata e surreal
 
avança
unicórnio lendário
protuberante
rinoceronte bizarro
surfista extravagante
em forma de chapéu
 
lentamente
avança co-movido
pelo chamado das ondas
que em si encerra
em seu ventre vazio
onde o vento em voluteios
é a própria voz do mar
 
oh, búzio caprichoso
como as curvas e volutas
de um corpo de mulher...
 
 
 
METAPOEMA
 
As meadas e as palavras
são labirintos e teias.
Nelas os poetas se elevam;
nelas as moscas se enleiam
e se debatem em vão.
Os poetas são.
As moscas, não.
 
 
ENIGMA
 
entre o som
         o sono
         o sonho
         a sombra e a sobra
eu me decomponho
     em escombros
em farpas e agulhas
      escarpas e fagulhas
                                     desfeito enfim
                                     em fogos de artifício
                                     feito estrelas de mim
esfinge autoantropofágica que
não se decifrou e que a si
mesma se devorou
 
 
INSÔNIA
 
No silêncio abissal
da noite estagnada
a engrenagem pesada
do tempo se desenrola
e desaba sobre mim.
 
As botas cadenciadas
das horas marcham
- lentas lesmas –
marcham infinitamente
na noite sem fim...
 
 
NOTURNO EM DOR MAIOR
 
na noite ca’lad(r)a
      um cão ladra
      sem resposta
um galo canta
sem o eco doutro galo
um vaga-
lume vaga
sem lume
vaga-
          rosa/mente
          demente
na noite vaga
uma ave
noctívaga
navega
na vaga
do m’ar sem movimentos
nos cataventos
      sem ventos
e de mirantes
      sem mira/gens
a morte espreita
nos olhos vidrados
do enforcado.       
 
 
EGOCENTRISMO
 
     espirrei
na réstia de luz
da janela de meu quarto
e fiz surgir um
                arco-íris
                arco-do-triunfo
sob o qual
napoleonicamente passei
sobre o qual caminhei
em busca do
                velocino de ouro
coroado com o
                l’ouro
de minha própria
     alquimia.
 
GRAN FINALE
 
Desmanchei
com minhas mãos
que os criara
os deuses em que cria.
Desfiz
a imagem que fizera
da mulher amada.
Perdi a fé em tudo
como quem nada perde.
Depois
gritei, berrei,
chorei gargalhando
e resolvi ficar louco.
Depois de doido
resolvi tentar a sorte
            sal-
                   tan-
                          do de cabeça
do alto do arranha-céu.
 
 
MULHER NA LAGOA DO PORTINHO
                             
Na tarde antiga
de sol e bruma
de luz e penumbra
as dunas mudaram
de cores e formas.
 
Os belos olhos esplendentes –
pálidas cálidas opalas ou
esmeradas esmeriladas esmeraldas –
da mulher bonita
de sinuosas dunas e viagens
furta-cores furtaram
outros tons e sobretons.
 
Ainda guardo a memória viva
daquela tarde morna e morta
e ainda vejo aqueles olhos vivos
furtando furtivos cores e atenção.
 
E os olhos e as formas curvilíneas
permanecem intactos no tempo
que em mim não passou.
 
E a mulher, acaso passou,
nos escombros das formas
transitórias da beleza?...
 
 
ENCONTRO
 
Em teus olhos mergulhei
para rever
        reviver o já vivido.
Neles me embebi
                embevecido
ao arrebatar do inesquecido
“o que não foi
e que poderia ter sido”.
Colhi nas minhas
o perfume de tuas narinas.
A essência de tuas crinas e resinas
às minhas misturei.
Com os meus, colhi-te
os lábios, entreabertos
em suave espera e ânsia.
Beijei-te os olhos
– fechados para que visses e sentisses
plenamente a magia do momento –
e deles vertias o céu e o mel.
 
 
AUTOBIOGRAFIA ZODIACAL
 
Sou do signo de
         Carneiro
mas meu coração é um
         Touro indomável.
No meu sangue
corre a fúria de
         Leão.
Entre uma Virgem e duas
         Gêmeas
meu coração/bala
         Balança.
Sou um Câncer
nos chifres de
         Capricórnio.
Sou Peixes libertário
sem o cárcere de um
         Aquário.
Sou Sagitário
         a
              r
                  m
                       a
                           arco e flecha
                       d
                  o
             d
         e
( A flecha é uma cauda de Escorpião.)
 
 
A PONTE NA MEMÓRIA
 
O vento passavoante
             pássaro voante
sob o arco-da-velha
sob o arco da ponte.
Baloiça os pés de oitis,
joga confete com suas folhas
e empurra o casario antigo
com suas: arcadas dóricas
                 volutas jônicas
                 ogivas góticas
                 sacadas exóticas
com suas parábolas e abóbadas.
O vento passalígero passalísio
e empurra o casario antigo
que navega parado
no tempo que navega
como um mar que navegasse
sob um navio ancorado
que se deixasse navegar.
José Elmar de Mélo Carvalho nasceu em Campo Maior – PI, em 09/04/56. Juiz de Direito. Bacharel em Direito e em Administração de Empresas. Presidiu o Diretório Acadêmico “3 de Março”, a União Brasileira de Escritores do Piauí e o Conselho Editorial da Fundação Cultural Monsenhor Chaves. Foi membro do Conselho Editorial da Universidade Federal do Piauí. Publicou os livros “Rosa dos ventos gerais”, “Cromos de Campo Maior”, “Noturno de Oeiras” e “Sete Cidades – roteiro de um passeio poético e sentimental”. Co-autor do livro “A poesia parnaibana” . Participou de várias antologias, entre as quais “Baião de todos” e “A poesia piauiense no século XX”, organizadas por Cineas Santos e Assis Brasil, respectivamente. Citado em diversos livros e dicionários biográficos. Colaborador de vários jornais e revistas. Membro de diversas entidades literárias e culturais. Detentor de várias honrarias e distinções culturais. Seu livro “Rosa dos ventos gerais” recebeu o prêmio Ribeiro Couto (obra reunida), conferido pela União Brasileira de Escritores – Rio de Janeiro.

 

 
 
 
 
 
AUTOBIOGRAFIA
 
Após seguir os mais ásperos caminhos,
Napoleão avesso, eu próprio me coroei
com uma coroa de cravos e espinhos.
Subi montes, rompi charcos,
atravessei grutas sem luz,
com os ombros esmagados
ao peso de férrea cruz.
Em noites de névoas e luares
sofri e cantei perdido nos lupanares.
Em dias de sol escaldante e incandescente,
fui casto Dante
e Baudelaire delirante e indecente,
pelas tardes mornas de ressacas e orgias.
No Olimpo a que subi em busca
dos mitos, à procura de Zeus,
pregaram-me numa cruz onde
puseram irônica tabuleta: “Rei dos Judeus”.
Por frígida e pálida manhã,
envolto em solidão e neblina,
rasguei e perdi minha toga purpurina.
Cheio de ódio e de amor,
sorvendo taças e mais taças
de bebida balsâmica e malsã,
nos bordéis de Eros, nos templos de Pã,
e nos palácios dourados de Mefisto,
onde sucumbo e resisto,
no meio de mentira e desengano,
fui Satã,
fui Cristo,
fui Humano.
 
O BÚZIO
                              
o búzio
- pequeno castelo
ou gótica catedral -
sobre a mesa avança
envolto em ondas e vendaval
 
anda ondulante
onda cavalgante
onda ante onda
 
atraído pelo chamado
do mar avança
chamado que carrega
nas espirais e labirintos
de sua concha côncava
     
avança e
lança sobre mim
a tessitura exata
de sua arquitetura
abstrata e surreal
 
avança
unicórnio lendário
protuberante
rinoceronte bizarro
surfista extravagante
em forma de chapéu
 
lentamente
avança co-movido
pelo chamado das ondas
que em si encerra
em seu ventre vazio
onde o vento em voluteios
é a própria voz do mar
 
oh, búzio caprichoso
como as curvas e volutas
de um corpo de mulher...
 
 
 
METAPOEMA
 
As meadas e as palavras
são labirintos e teias.
Nelas os poetas se elevam;
nelas as moscas se enleiam
e se debatem em vão.
Os poetas são.
As moscas, não.
 
 
ENIGMA
 
entre o som
         o sono
         o sonho
         a sombra e a sobra
eu me decomponho
     em escombros
em farpas e agulhas
      escarpas e fagulhas
                                     desfeito enfim
                                     em fogos de artifício
                                     feito estrelas de mim
esfinge autoantropofágica que
não se decifrou e que a si
mesma se devorou
 
 
INSÔNIA
 
No silêncio abissal
da noite estagnada
a engrenagem pesada
do tempo se desenrola
e desaba sobre mim.
 
As botas cadenciadas
das horas marcham
- lentas lesmas –
marcham infinitamente
na noite sem fim...
 
 
NOTURNO EM DOR MAIOR
 
na noite ca’lad(r)a
      um cão ladra
      sem resposta
um galo canta
sem o eco doutro galo
um vaga-
lume vaga
sem lume
vaga-
          rosa/mente
          demente
na noite vaga
uma ave
noctívaga
navega
na vaga
do m’ar sem movimentos
nos cataventos
      sem ventos
e de mirantes
      sem mira/gens
a morte espreita
nos olhos vidrados
do enforcado.       
 
 
EGOCENTRISMO
 
     espirrei
na réstia de luz
da janela de meu quarto
e fiz surgir um
                arco-íris
                arco-do-triunfo
sob o qual
napoleonicamente passei
sobre o qual caminhei
em busca do
                velocino de ouro
coroado com o
                l’ouro
de minha própria
     alquimia.
 
GRAN FINALE
 
Desmanchei
com minhas mãos
que os criara
os deuses em que cria.
Desfiz
a imagem que fizera
da mulher amada.
Perdi a fé em tudo
como quem nada perde.
Depois
gritei, berrei,
chorei gargalhando
e resolvi ficar louco.
Depois de doido
resolvi tentar a sorte
            sal-
                   tan-
                          do de cabeça
do alto do arranha-céu.
 
 
MULHER NA LAGOA DO PORTINHO
                             
Na tarde antiga
de sol e bruma
de luz e penumbra
as dunas mudaram
de cores e formas.
 
Os belos olhos esplendentes –
pálidas cálidas opalas ou
esmeradas esmeriladas esmeraldas –
da mulher bonita
de sinuosas dunas e viagens
furta-cores furtaram
 
Por José Elmar de Mélo Carvalho
 
 
    
 

Dia: 06/09
Juiz José Orlando Ribeiro Rosário
Dia: 06/09
Juiz José William Veloso Vale
Dia: 09/09
Juiz Belmiro Meira Júnior
Dia: 09/09
Juíza Mara Rúbia C. Soares Machado
Dia: 12/09
Juíza Verônica Maria dos Santos Fontinelle

 
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